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Que filme bom. Quer um conselho? Não leia nada do que está escrito nos próximos parágrafos, não leia nada na internet, não veja o trailer. Apenas ligue o filme e deixe que ele te surpreenda.

Para você que já assistiu ou vai continuar lendo e teimando comigo, vou tentar economizar no spoiler. Never Let Me Go é um filme que te carrega. Cada cena vai criando tensões diferentes e perturbadoras, de uma maneira estranha e incômoda, que faz com que você sinta que algo não vai bem no dia a dia de um grupo de crianças que estudam em um internato. Há algo muito estranho por trás da normalidade do recreio e dos desenhos da aula de Artes. Quando fica claro o que é que está acontecendo, você leva um choque. E quando está se recuperando, relaxado tomando vinho e comendo salaminho no sofá, leva outro choque. E assim Never Let Me Go vai, de choque em choque, carregando você através da sua história.

Tudo no caminho contribui pra isso, da trilha sonora à direção, dos figurinos às atuações acima da média. Keira Knightley, Carey Mulligan e Andrew Garfield (o Eduardo Saverin do Facebook) estão muito bem nos seus papéis. Não vou falar mais do que isso pra não estragar a experiência do filme para quem ainda não viu. Apenas confie e embarque nessa história de gente grande, muito diferente do que parece num primeiro olhar.

Eu ia colocar o trailer aqui, mas ele REALMENTE acaba com a graça do filme (e ainda faz ele parecer um simples romance medíocre).

Outrage

Dedos arrancados com faca cega. Dedos decepados dentro do missoshiru. Dedos arrancados com estilete. Não importa como, se tem uma coisa que Outrage manda longe são os dedos da Yakuza.

A trama é um pouco confusa, até porque torna-se virtualmente impossível entender bem o papel de cada personagem em um filme cheio de japoneses de terno preto. Não me levem a mal, por favor, mas eu tenho dificuldade em diferenciar. É como nos filmes de guerra, que demoro a entender quem é quem naquele mar de soldados vestidos do mesmo jeito e com as mesmas caras de mulambentos selvagens.

Enfim. O que acontece é que as várias famílias da Yakuza jogam um jogo de poderes, onde cada um interpreta seu personagem rumo ao poder e ao dinheiro. Traição, mentira, trapaça. Outrage possui todos os ingredientes de uma novela mexicana, mas com o tempero do wassabi e a crueldade da terra do sol nascente. Neste jogo, o personagem do psicótico Takeshi Kitano deveria ter pendurado as chuteiras há muito tempo. Ele é um mafioso das antigas, que respeita a honra e a tradição de cortar os dedos por qualquer motivo (o seu e o dos outros). É desse jeito que ele se mete em uma grande enrascada, onde ninguém é confiável e a violência rola solta.

Bom filme para quem curte a insanidade violenta dos japoneses.

Você aí, que ficou todo deslumbrado e assustadinho com o Cisne Negro, devia ver esse filme aqui pra entender o que é alguém buscar seu lado sinistro. Nele, o Dustin Hoffman é um cientista matemático muito pacato, adepto dos blazers de lã, óculos fundo de garrafa e outros acessórios caricatos. Isso em 1971, é claro, quando o filme foi feito. Hoje em dia é moda andar vestido de Bill Gates. Enfim, o caso é que ele é casado com uma mulher que não usa sutiã e esbanja sensualidade. Então este casal peculiar muda-se para uma cidadezinha da Escócia infestada de rednecks escoceses, uns caipiras bêbados de whisky muito truculentos e barra-pesada. O problema é que eles estão trabalhando na reforma da casa de nosso amigo estudioso dos números. A sujeira só está para começar.

Como eu disse, este filme é de 1971, dos bons tempos dos filmes com personagens que reagem. Não tem essa de correr pra baixo da cama, se esconder no sótão, fugir pro meio da floresta. Nessa época os personagens davam seu jeito de resolver as coisas. Então o que acontece é que alguns problemas começam a aparecer, e o Dustin Hoffman precisa se virar para dar um jeito nisso. E é o jeito como esse professor bundão vai se transformando em um vingador irracional que é sensacional. É isso que dá um sarrafo em qualquer filmeco de balé pretensioso e cheio de arte vigarista. Porra, o Dusatin Hoffman prende uma armadilha de urso na cabeça de um cara! Aí entra em cena a mão do diretor Sam Peckinpah, que poderia tranquilamente mijar em cima dos blu-ray de todos os indicados ao Oscar de 2011. Sam Peckinpah, o mestre da câmera lenta, é também o mestre da edição, da tensão e do climax violento. Explosivo.

Quando estava procurando o poster, encontrei um cara dizendo que o Straw Dogs é lento e mal executado. Uma bobagem, é claro, quando a grande graça é ir até o limite junto com o protagonista. Por isso, amigo, não fale besteira. Veja esse filme e aprenda de uma vez por todas: são filmes como esse que fazem o cinema ser o que é. E não é nenhum Colin Fith gago nem Natalie Portman dançarina virgem que vão conseguir provar o contrário.

Aos domingos, a vida sem TV a cabo não é fácil.

O dia televisivo, que começou com a irritante pseudo-favelada Regina Casé, já dava sinais que não tinha como acabar bem. E não acabou. Depois de cumprir todas as prioridades com sua revista eletrônica semanal e o emocionante paredão triplo do BBB, a Globo completou a lacuna da programação com o 83° Oscar.

Preferia ver um documentário sobre o Bilú.

O Oscar anda tão chato e previsível que é possível acertar todo o bolão sem ver nenhum filme. É só juntar os ganhadores do Globo de Ouro com os do BAFTA com os do SAG com os do Wikileaks e fazer uma média. Ganha aquele que custou mais caro e tem nota mais alta no IMDB.

Para quem não tem uma boa vontade inicial, então, deve ser um Deus-nos-acuda. É inconcebível que em pleno 2011 não haja uma legenda automática, um SAP, qualquer coisa melhor que a tradução simultânea da Globo, feita com o único objetivo de tornar tudo incompreensível. Outro ponto: será que todo mundo se acha tão importante mundialmente a ponto de não precisar do nome escrito debaixo da tela quando aparece?

Isso sem falar nas piadas chatas, canções insuportáveis e o ambiente brega-chique predominante. Alguém me responda, por favor, por que é que o Zé Wilker e aquela outra mulher que apresentam o Oscar ali no RJ precisam estar vestidos a rigor, como se fossem entrar andando pelo tapete vermelho? Eles estão no PROJAC!

O Oscar deveria seguir o exemplo de outro Oscar, o Niemeyer, e se reinventar urgentemente. Do jeito que vai, tão chato e vergonhoso, quase dá para arriscar um palpite: ano que vem ele passa na Record.

Comédia de banditismo delinquente com final redentor. Um clássico!

Bad Santa veio repleto de recomendações, do nobre Túlio aos mancebos Cristiano e Eduardo. Como eles haviam dito, o filme consegue esculhambar geral e fazer um humor-negro de primeira.


Billy Bob Thornton é Willie, um vigarista alcoólatra que arma planos junto com seu comparsa para assaltar shoppings na época do Natal. Willie faz as vezes de Papai Noel, enquanto seu cúmplice entra no personagem de um perigosamente divertido elfo ajudante.

Os melhores momentos, sem dúvida, são os que colocam os dois desempenhando mal e porcamente suas funções no shopping, destratando as crianças e assediando as mães delas, até que possam encher o trenó do crime e se mandar para Miami.

Se você gosta de comédias malcriadas e levemente retardadas, pode cair dentro.


O que é legal: Um criminoso e seu ajudante. Anão. Negro. E que usa tudo isso contra os empregadores.

O que não é legal: Bad Santa, como qualquer filme familiar, precisa de um final redentor, regado a arrependimento e conversão, transformando o bandido em bom moço. Pra variar.

Existem momentos-chave na vida que são realmente representativos, onde muitas vezes uma minoria é responsável por mudanças que redefinem o rumo de toda a maioria. É o tipo de coisa que acontece nas artes, nas ciências, na política… E, claro, no esporte.

Particularmente, são exatamente estas últimas as que mais me atraem. Talvez seja este um dos motivos que me levam a gostar tanto de filmes como Dogtown and Z-Boys, narrando o surgimento do skate como meio de expressão rebelde, agressivo e radical, ou uma história como a de Riding Giants, traçando toda a trajetória do surfe de ondas grandes através de poucos personagens.

Em Bustin’ Down the Door não é diferente. Marcado pela estética de fitas Super 8 e trilha sonora dos anos 70, o documentário de Jeremy Gosch é um exercício de nostalgia para os mais velhos, e uma bela aula para os mais novos entenderem como o surfe tornou-se a grande indústria que é hoje em dia.

O que ele narra é a chegada de alguns garotos australianos e sul-africanos ao Hawaii no inverno de 75. E o que isso tem de especial? Nada, não fossem estes garotos Shaun Tomson, Mark Richards, Wayne Rabbit Bartholomew e Ian Cairns – basicamente, os responsáveis pela transformação surreal de um elemento da contracultura em um esporte profissional. Algo impensável, equivalente a um hippie ser (muito) bem pago para ser hippie profissional nos dias de hoje. Levando-se em consideração, claro, que este hippie virasse de cabeça para baixo a maneira como a maioria dos hippies fazia as coisas até então.


Enfim… Divagações e analogias à parte, Bustin’ Down the Door é um filme precioso, valioso, não só pelas riquíssimas imagens ou por contar a história de personagens determinantes dentro de um esporte que vai muito além disso. Seu valor também vem de algo mais profundo: o reconhecimento àqueles que tiveram coragem de mudar todo o mundo em busca do mundo com o qual sonharam.

O que é legal: Nenhuma das tecnologias atuais consegue ter o charme de um vídeo Super 8. Me desculpem, mas os anos 70 têm uma estética sem igual. Vale a pena visitar o site do filme, que traz um pouco desse visual incomparável.

O que não é legal:

Típico filme de intriga conspiratória dos anos 90, com a mesma ladainha de sempre: governo envolvido com corporações e grupos de mercenários que ameaçam a liberdade e soberania do povo americano.

No meio disso tudo está, é claro, um jornalista-investigador, o tipo de herói também cultuado nos anos 90.

O que adiciona um novo ar à trama é que agora o bagunçado jornalista, rodeado de papéis e fotografias por todos os lados de sua mesa, sente-se ameaçado por uma jovem garota contratada para trabalhar na parte on-line do jornal. Para mim parece apenas um motivo meio banal para confrontar o velho com o novo, abordar o impacto das novas mídias nos jornais e, claro, mostrar o quão fodão é Russel Crowe old-school aventurando-se pelo submundo do crime atrás de uma boa matéria para o Washington Globe.

Nessa ele descobre que seu amigo, o Deputado Ben Affleck, está envolvido na conspiração, e então surgem dúvidas entre o que deve prevalecer: o lado pessoal ou o do jornalista herói. É claro que, no final, o diploma de jornalismo do Russel Crowe prevalece sobre a boateira-blogueira Rachel McAdams, os dois viram amigos e conseguem, juntos, desarmar a grande conspiração multinacional de ex-fuzileiros mercenários.

Enrolei, enrolei, e finalmente cheguei até o final. Exatamente como Kevin MacDonald em seu filme morno.

O que é legal: Francamente? O que mais gostei foram os créditos finais, mostrando todo o processo de impressão do jornal ao som do Creedence. Pra vocês verem o naipe das coisas.

O que não é legal: Apesar de ser um filme de gênero, bem focado, em nenhum momento a história de espionagem ou conspiração engrena, apresentando temas e personagens tão caricatos quanto o nome da empresa que está por trás da tramoia toda – Point Corp. Repetindo: POINT CORP.