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Archive for the ‘Thriller’ Category

Típico filme de intriga conspiratória dos anos 90, com a mesma ladainha de sempre: governo envolvido com corporações e grupos de mercenários que ameaçam a liberdade e soberania do povo americano.

No meio disso tudo está, é claro, um jornalista-investigador, o tipo de herói também cultuado nos anos 90.

O que adiciona um novo ar à trama é que agora o bagunçado jornalista, rodeado de papéis e fotografias por todos os lados de sua mesa, sente-se ameaçado por uma jovem garota contratada para trabalhar na parte on-line do jornal. Para mim parece apenas um motivo meio banal para confrontar o velho com o novo, abordar o impacto das novas mídias nos jornais e, claro, mostrar o quão fodão é Russel Crowe old-school aventurando-se pelo submundo do crime atrás de uma boa matéria para o Washington Globe.

Nessa ele descobre que seu amigo, o Deputado Ben Affleck, está envolvido na conspiração, e então surgem dúvidas entre o que deve prevalecer: o lado pessoal ou o do jornalista herói. É claro que, no final, o diploma de jornalismo do Russel Crowe prevalece sobre a boateira-blogueira Rachel McAdams, os dois viram amigos e conseguem, juntos, desarmar a grande conspiração multinacional de ex-fuzileiros mercenários.

Enrolei, enrolei, e finalmente cheguei até o final. Exatamente como Kevin MacDonald em seu filme morno.

O que é legal: Francamente? O que mais gostei foram os créditos finais, mostrando todo o processo de impressão do jornal ao som do Creedence. Pra vocês verem o naipe das coisas.

O que não é legal: Apesar de ser um filme de gênero, bem focado, em nenhum momento a história de espionagem ou conspiração engrena, apresentando temas e personagens tão caricatos quanto o nome da empresa que está por trás da tramoia toda – Point Corp. Repetindo: POINT CORP.

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Antes de dar continuidade ao dia temático da sexta-feira 13, quero publicar mais uma resenha, que caridosamente a Gi fez a gentileza de mandar diretamente de Londres. Valeu Gi!

A maioria das resenhas sobre Inception começam com “não vou falar muito pra não estragar a surpresa”. Então vou avisar: escrevo em mente que você já viu Inception e não se importa com spoilers.

Inception é lindo, o roteiro é foda, os atores são todos ótimos. E isso eu já sabia antes de ver e foi, sim, confirmado na telona. Acontece que todo mundo disse que era O FILME e eu achei massa, mas nada de entrar no meu TOP 5. Aliás, já subiu pra terceiro lugar no top 250 do IMDB. Todo mundo fala, todo mundo explica, faz piadas, publica imagens fofas de Ellen Page no Tumblr – há uma grande orkutização do Inception que virou o novo Efeito Borboleta das listas de filmes favoritos.

Nada contra a popularização do filme, acho bom que algo de qualidade faça tanto sucesso. Mas confesso que enjoei de Inception depois de apenas um mês. Não, não quero ver de novo pra reparar na aliança, mão enrugada ou se o peão ainda gira. Quero depois de uns anos ver no conforto da minha casa e poder pausar pra fazer pipoca – porque o filme é tanta informação que Nolan tentou condensar em duas horas que é confuso, é bastante para digerir. Há a vantagem que você fica tão imerso e concentrado na trama que quando saímos para o mundo real dá uma sensação de sonho. Eu demorei pra acordar depois de Inception.

Ok, já que todo mundo falou o porquê de Inception ser tão massa, vou falar o que me incomodou.

Primeiro: eu não acredito no plot da esposa que morreu. Leo me convenceu no começo do filme que ele é ALTOS FODA nesse negócio de Inception e eu acreditei. Daí ele quer me convencer que ele é perturbado e a culpa o atrapalhou e ele não pôde atirar na mulher dele antes dela atirar no carinha? Peraí, ele hesitou em atirar numa PROJEÇÃO do inconsciente dele? Ele sabe que ela morreu! Enfim, eu não achei a história dos dois bonita, envolvente, romântica, algo que me fizesse torcer por eles. Eu apenas queria que ele a matasse de uma vez.

Daí tem o tal do Robert Fischer que precisam implantar a idéia pra ele ruir o império do pai. Eu achei esta idéia incrível, como implantar uma idéia sem o cara notar? Quais as conseqüências de uma lembrança que não é verdadeira? Qual a ética dentro de idéias e lembranças? Num mundo com tecnologia para tanto, não há quem tente regularizar isso? Enfim, eu estava interessada na premissa de Inception e não tanto nas cenas de ação que foram longuíssimas e com mil detalhes – mas sem se preocupar com qualquer aspecto moral.

E tem o final. O filme todo é construído tendo como base as regrinhas do Nolan, nada é jogado de graça, temos que pensar junto com a narrativa e descobrir as conseqüências junto com os personagens. E daí no fim, Nolan bota um peão que gira infinitamente – ou não – e não temos como chegar a uma conclusão concreta se o peão caiu – ou não. Poxa, depois de duas horas fervendo o cérebro, eu queria uma conclusão ou uma dica que levasse ao arremate mas sei lá o que ele queria com o final aberto.

Enfim, não vou tirar os méritos. Paris se dobrando na frente dos meus olhos é coisa linda de se ver. E sonho dentro de sonho dentro de sonho com temporalidade variável é um conceito complicado mas que as pessoas entendem. E isso foi a maior genialidade – não ter que explicar conceitos avançados de espaço-tempo porque até o maior burro da Capadócia entende por experiência própria. Afinal, quem nunca sentiu a sensação de um sonho longo de 5 minutos?

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Chegou a hora de dar um tempo em Inception… Mas não em Christopher Nolan.

Logo após assistir A Origem, fui praticamente obrigado a chegar em casa e resgatar meu DVD de Amnésia da gaveta. Mais uma vez, não houve dúvida de que este é um filme genial.

Na primeira vez em que o assisti, em algum daqueles cinemas com cadeira de madeira e cheiro de mijo da Fundação Cultural de Curitiba (desculpem, mas é verdade) já tinha achado o filme sensacional. Porém, devido a narrativa de trás pra frente, por assim dizer, ele fica melhor a cada vez que é revisto.

Em Amnésia, o diretor Christopher Nolan já usava um artifício que, depois, viria a ser uma característica marcante de seu trabalho – a edição como parte fundamental da história.

Amnésia conta a história de Leonard (Guy Pearce), um homem que, aparentemente, perdeu a capacidade de armazenar fatos recentes em sua memória a partir do dia em que sua esposa foi estuprada e brutalmente assassinada por uma dupla de ladrões violadores. A jornada de Lenny, então, é uma saga de vingança. Entretanto, sua condição dificulta muito a tarefa, obrigando-o a fazer anotações e tatuagens no corpo com as principais pistas do caso, o que o leva a um jogo de manipulações externas e, o que é pior, vindas dele próprio.

Olhando assim, Amnésia poderia ser apenas mais um filme de vingança. O que o torna diferente é justamente a forma como é contado, a partir do final. Assim, nos sentimos tão perdidos quanto o personagem, e entendemos perfeitamente como os conceitos de certo e errado podem variar, dependendo do ponto de vista pelo qual estão sendo observados.

Se você não viu Amnésia, veja o quanto antes. É genial.

O que é legal: Quando o passado não existe e a verdade resume-se a alguns minutos atrás, forma-se um quebra-cabeças onde as peças nem sempre são o que parecem, e constantemente mudam de figura. Definitivamente, Christopher Nolan é um dos maiores e mais criativos diretores do nosso tempo.

O que não é legal: É um filme difícil. Muito mais difícil que Inception, por exemplo. O que seria uma grande qualidade pode rapidamente tornar-se um defeito, principalmente se a pessoa não conseguir embarcar nessa viagem.

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http://veja.abril.com.br/blog/isabela-boscov/cinema/a-origem/

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Ao longo de sua carreira, o cineasta britânico Christopher Nolan comandou sete longas-metragens: Following, Amnésia, Insônia, Batman Begins, O Grande Truque, O Cavaleiro das Trevas e A Origem. Destes, assisti a seis (ainda não conferi sua estréia na função) e classifiquei todos, exceto um, como “cinco estrelas” (a refilmagem Insônia ganhou quatro). Mas mais significativo é o fato de que, dos cinco sobre os quais escrevi, nada menos do que três (incluindo este A Origem) inspiraram críticas que exigiram ser divididas em duas (ou – aqui – três) partes para que eu pudesse abordar melhor a complexidade temática e/ou narrativa das obras – e se você ficou confuso com a quantidade de números que citei neste primeiro parágrafo, aconselho que evite o novo trabalho do diretor, que tampouco oferece uma jornada fácil aos seus espectadores.

Concebido como uma mistura incrivelmente eficiente de Paprika, Sinédoque, NY, Rififi e Matrix, A Origem é uma ficção científica que faz jus aos melhores do gênero, apresentando-nos a conceitos intrigantes e dedicando-se, então, a explorá-los até suas conseqüências mais extremas. Escrito pelo próprio Christopher Nolan com uma inteligência que deixaria Philip K. Dick orgulhoso, o roteiro acompanha um grupo de espiões industriais que, liderados por Don Cobb (DiCaprio), invadem não os escritórios ou cofres das empresas-alvo, mas as mentes de seus principais executivos. Efetuando esta invasão durante os sonhos das vítimas, os ladrões são capazes até mesmo de simular níveis diferentes de “realidade” dentro da mente na qual se encontram com o objetivo de enganar o sonhador e convencê-lo a entregar seus segredos mais valiosos. É então que o poderoso Saito (Watanabe) decide contratar os espiões para que façam o procedimento inverso, plantando uma idéia na mente do jovem bilionário Robert Fischer (Murphy) – uma tarefa não só inédita, mas que pode trazer grandes riscos para Cobb e seu parceiro Arthur (Gordon-Levitt).

Um dos aspectos mais fascinantes deste intrigante conceito de invasão de sonhos (presente também na já citada animação Paprika e em Morte nos Sonhos) reside na idéia – perfeitamente explicada pela neurologia, que a identifica como um mecanismo de proteção do sono – de que fatores externos à mente possam influenciar os eventos presentes no universo onírico. Assim, sons, cheiros e movimentos detectados pela pessoa em repouso podem ser traduzidos em detalhes dos sonhos exatamente como o toque de um despertador muitas vezes é absorvido e transformado num som “reconfigurado” pela mente adormecida – algo que Nolan emprega ativamente no filme, por exemplo, ao trazer uma chuva torrencial como conseqüência da vontade do “sonhador” de ir ao banheiro ou, num dos melhores momentos do longa, ao enfocar um hotel que deixa de respeitar as leis da gravidade em função da situação caótica na qual se encontram as pessoas em cujos sonhos aquele prédio se encontra. Estas subversões da lógica do “mundo real”, aliás, são impecavelmente ilustradas pelos brilhantes efeitos visuais, que só não serão indicados ao Oscar caso os membros da Academia tenham dormido durante a projeção. Da mesma maneira, o fantástico design de produção se encarrega de dar vida a ambientes que, mesmo trazendo uma aparência sólida de realidade, freqüentemente surpreendem ao revelar níveis de insuspeita complexidade, como a “escadaria infinita”, o limbo arquitetado por Cobb ou a luxuosa edificação que abre a narrativa.

Aliás, em um primeiro momento, é possível que esta “aparência sólida de realidade” possa ser interpretada como uma oportunidade desperdiçada por Nolan e sua equipe – afinal, numa narrativa intensamente calcada num universo onírico, por que não subverter constantemente as leis da física e investir em mudanças abruptas (e mesmo absurdas) da geografia ou da lógica do que estamos vendo? Por que, por exemplo, ninguém se flagra nu em público ou descobre-se incapaz de se mover, representando sonhos comuns que poderiam despertar reações no espectador que enxergasse suas próprias experiências como “sonhador” na tela? A resposta, creio, deve-se mais à disciplina do cineasta como contador de histórias do que a uma possível falta de imaginação: já bastante convoluta ao envolver múltiplos níveis de realidades que se engolem como bonecas russas, a narrativa poderia facilmente atravessar a fronteira entre o complexo e o incompreensível, sendo prejudicada justamente por suas ambições. Além disso, ao trazer a figura de uma arquiteta (Page), Nolan justifica narrativamente a “solidez” do sonho, que surge, então, cuidadosamente planejado e organizado pelos invasores justamente para que se apresente com um mínimo de coerência interna que permita sua ação como espiões.

Ainda assim, A Origem não busca simplificar sua narrativa para o espectador, já que, além de envolver, como já citado, níveis diferentes de sonhos-dentro-de-sonhos (algo que fica claro na seqüência que abre o filme), logo descobrimos que o tempo tem duração diferente dependendo da profundidade na qual os heróis se encontram. Neste sentido, aliás, o roteiro busca complicar ao máximo o trabalho do montador Lee Smith, que, além de manter a ação num ritmo constante, é obrigado a enfocar ações paralelas que se passam em ambientes com regras próprias quanto à duração dos eventos que abrigam – e tudo isso sem que permita que a narrativa se torne indecifrável para o público, saindo-se admiravelmente bem na tarefa. (Já indicado ao Oscar por Mestre dos Mares e O Cavaleiro das Trevas, Smith provavelmente voltará à cerimônia pela terceira vez graças ao seu excepcional esforço nesta produção.)

Enquanto isso, o compositor Hans Zimmer faz um de seus melhores trabalhos ao criar uma trilha que já confere uma atmosfera sinistra e sombria ao filme desde os seus primeiros segundos, mas que, além disso, exibe uma lógica interna fabulosa ao empregar a base melódica da canção “Non, Je Ne Regrette Rien” (tornada famosa por Édith Piaf) como fonte do tema principal da narrativa ao executá-la numa cadência mais lenta – o que estabelece uma rima musical/temática perfeita com a música de Piaf, que, afinal, desempenha importante papel na trama. Da mesma forma, os figurinos ajudam a estabelecer com eficiência as personalidades dos personagens, desde as roupas mais joviais de Page aos ternos sóbrios de DiCaprio, passando pelos vestidos de femme fatale exibidos por Marion Cotillard. Vale observar, também, a importância de detalhes como a aliança de Cobb, que pode ou não ser vista em sua mão ao seguir uma lógica interna impecável.

Contando com um elenco admirável, Nolan extrai de seus atores os atributos necessários para que cada personagem desempenhe um papel preciso e importante na história: DiCaprio, dividindo características de composição apropriadamente reminiscentes de sua atuação em Ilha do Medo (com o qual A Origem formaria excelente sessão dupla), surge tenso e gradualmente mais angustiado e inseguro à medida em que a projeção avança, ao passo que Joseph Gordon-Levitt, como Arthur, exibe uma firmeza de ação que mantém o público sempre convencido de sua competência e de sua importância para os planos do parceiro. Marion Cotillard, por sua vez, encarna, como já dito, uma femme fatale que poderia ter saído diretamente de um noir, enquanto Ellen Page, como uma jovem que ganha a oportunidade de realizar o sonho de qualquer arquiteto (literalmente, neste caso), evita se tornar apenas a personagem “novata” que, como tal, é usada exclusivamente como recurso expositivo para esclarecer conceitos para o espectador; em vez disso, ela se torna peça importante ao fazer jus ao nome e auxiliar os demais em suas trajetórias dentro dos sonhos.

Respeitando o espectador ao não insistir em interromper a narrativa periodicamente para mastigar os acontecimentos, Christopher Nolan mantém esta confiança até o instante final da projeção, evitando um desfecho auto-explicativo que simplifique e resolva tudo para o público – que, assim, sairá do cinema discutindo ativamente o significado do que acabou de testemunhar (incluindo, claro, a cena final). Isto não quer dizer, porém, que A Origem não se resolva; a diferença é que, graças à complexidade de sua narrativa, o filme permite múltiplas conclusões igualmente satisfatórias.

E o melhor é que, para cumprir a tarefa de decifrar completamente estas alternativas, tudo o que o espectador deve fazer é se dar o presente de mergulhar novamente no inteligente e fascinante universo construído por este que vem se confirmando como um dos melhores diretores da atualidade. Uma tarefa de sonhos, convenhamos.

Mapeando a Origem

De modo geral, A Origem não é uma obra que busca complicar muito a vida do espectador. Sim, ao estabelecer o conceito de sonhos construídos dentro de outros sonhos, é possível que, aqui e ali, acabe levando o público a confusões momentâneas (em certo instante, Ariadne pergunta: “Agora estamos entrando no inconsciente de quem, mesmo?”), mas basta um pouco de paciência para que logo alcancemos os personagens e voltemos a nos situar dentro da narrativa.

Este jogo tem início logo na seqüência que abre o filme e que logo revela estar ocorrendo dentro de um sonho. Buscando convencer Saito a confiar seus segredos a ele, Cobb explica o conceito dos invasores de sonhos e se apresenta como um especialista capaz de treinar o executivo para que este seja capaz de se defender de espiões como ele. Segundos depois, no entanto, descobrimos que Cobb e Arthur já se encontram em um sonho, que acaba entrando em colapso quando Saito percebe a armação. Com a ação aparentemente frustrada, todos despertam em um pequeno apartamento e o japonês se mostra desapontado com a obviedade da estratégia dos ladrões – até que, ao observar um detalhe do cenário, percebe estar em outro sonho.

É assim, portanto, que Nolan estabelece um dos conceitos principais de seu filme – e a pergunta que os espectadores mais curiosos irão fazer é: mas, afinal, quem eram os responsáveis por cada “nível” de sonho?

Neste primeiro exemplo, a resposta é relativamente simples: Cobb, Arthur e Nash (Haas) se encontram em um trem-bala ao lado de Saito no mundo real. Quando todos adormecem, o “sonhador” que abriga o ambiente onírico é Nash, o arquiteto – e este primeiro nível de sonho é justamente o apartamento. A partir daí, Arthur e Cobb voltam a mergulhar em sedação ao lado de Saito, criando um segundo nível no qual o “sonhador” é Arthur – e descobrimos isso quando este é “morto” e volta ao primeiro nível, quando, então, o segundo sonho passa a entrar em colapso graças à sua ausência. Nesta seqüência, aliás, também descobrimos uma informação importante: o “sonhador” responsável por cada nível deve permanecer no ambiente que está hospedando enquanto os demais mergulham em camadas mais profundas – exatamente como Nash permaneceu no “apartamento”.

A partir destas informações acerca do mecanismo dos sonhos, podemos mapear com mais facilidade a complexa seqüência que surge como clímax da narrativa: no mundo real, Cobb, Arthur, Ariadne, Saito, Eames (o excelente Tom Hardy) e Yusuf (Rao) sedam o bilionário Fischer no avião – e todos entram em um sonho abrigado pelo especialista em sedação, Yusuf (sabemos disso por dois motivos: como ele está com a bexiga cheia, o sonho envolve chuva; e, mais tarde, quando todos mergulham em um nível mais profundo, ele permanece ali para manter o sonho estável). Nesta camada, o propósito da equipe é plantar o início da idéia na mente de Fischer, que deve ser levado a dividir o império deixado pelo pai.

Para isso, a equipe “seqüestra” o sujeito e Eames assume a identidade de Browning (Berenger), um homem no qual a vítima confia completamente. O propósito final, lembrem-se, é levar Fischer a abrir um cofre no nível mais profundo de seu inconsciente, descobrindo a semente de uma idéia que deverá acreditar ser sua. No entanto, para isso é fundamental que o rapaz acredite estar abrindo um cofre inviolável, sem desconfiar que a tal “semente” (um testamento que, assumindo a forma de um cata-vento, reforça sua ligação com a própria infância) foi plantada ali pelos invasores. É por esta razão que “Browning” (na realidade, Eames) revela a existência do tal testamento e Cobb obriga Fischer a dizer os primeiros números que surgirem em sua mente.

De posse destes números, todos (com exceção de Yusuf, que permanece no primeiro nível) voltam a se sedar, mergulhando num sonho que desta vez é abrigado por Arthur – reparem que o design básico do hotel remete às cores do sonho que abre o filme, também hospedado pelo personagem – e percebam que é ele quem ficará para trás quando todos descerem para o terceiro nível. Ali, Cobb se reapresenta a Fischer (que já esqueceu o sonho anterior) e explica que estão num sonho ameaçado por invasores, pedindo que este tente se “lembrar” do que estão buscando os ladrões – e é aí que os números anteriormente “plantados” são novamente reapresentados ao rapaz na forma de um número de telefone. Convencido de que aquele telefone foi originado por seu próprio inconsciente, Fischer é convencido de que eles representam o número de um quarto de hotel, sendo levado para lá por Cobb e sua equipe.

O bilionário encontra-se, então, plenamente convencido de estar sendo guiado por projeções de seu próprio inconsciente, sem desconfiar de que Cobb, Ariadne e os demais são invasores reais. É então que Eames volta a assumir a aparência de Browning e se apresenta como traidor ao rapaz, que fica atordoado com a revelação. Cobb, aproveitando a vulnerabilidade provocada na vítima, sugere que todos entrem no sonho de “Browning” para descobrir o que este tramava – e Fischer prontamente aceita, sem saber que, na realidade, estará entrando na mente de Eames.

Que, portanto, abriga o terceiro nível dos sonhos. É ali que se encontra o cofre que, aberto com os números que Fischer agora julga serem criação sua, revelará a semente da idéia encomendada por Saito – e que o pobre rapaz acreditará ter sido originada em sua própria mente.

Contudo, as coisas se complicam: Fischer e Saito são mortos antes do cofre ser aberto (na realidade, Saito vinha ferido desde o primeiro nível). Normalmente, a morte nos sonhos apenas levaria a vítima a despertar, mas a forte sedação, impedindo que isto ocorra, arremessa o sonhador a um nível mais profundo que Cobb batiza de “limbo”. Sem um ambiente planejado por um arquiteto, este limbo surgiria como um espaço vazio no qual seus ocupantes compartilhariam seus inconscientes – isto se Cobb e sua falecida esposa não tivessem passado o equivalente a 50 anos naquele nível, preenchendo-o com suas memórias e fantasias. É ali que Fischer é encontrado por Cobb e Ariadne depois que estes voltam a se sedar no terceiro nível (deixando Eames para trás, logicamente).

A esta altura, Nolan já levou o espectador a conhecer cinco níveis de realidade que apresentam ações paralelas: o mundo real e as camadas sonhadas por Yusuf, Arthur e Eames, além, claro, do limbo. E estabeleceu, também, que o tempo tem durações diferentes nestes “andares”: dez horas de sono no mundo real equivalem a uma semana no primeiro nível, alguns meses no segundo e dez anos no terceiro – um conceito fundamental para o despertar dos personagens, que só podem abandonar cada nível com a utilização de um “chute” (algo que provoque um grande choque, como uma queda ou a sensação de mergulhar em água gelada).

Reencontrando Fischer, Ariadne agora deve levá-lo de volta ao terceiro nível e, para isso, sincroniza um “chute” com a ressuscitação feita por Eames no andar superior – e quando este usa o desfibrilador no “corpo” do rapaz, a arquiteta atira-o de uma grande altura, no limbo, levando-o a despertar novamente diante do cofre. (Caso não tivesse sido simultaneamente ressuscitado por Eames no terceiro andar, Fischer simplesmente voltaria a morrer e retornaria ao limbo.) Em seguida, Ariadne também se atira do prédio e, com o “chute”, volta ao nível superior.

E é neste momento que Christopher Nolan e o montador Lee Smith orquestram um momento tão magnífico que, confesso, fui levado às lágrimas durante a projeção simplesmente por admirar a beleza da carpintaria dramática da seqüência: para que possam retornar ao primeiro nível dos sonhos (e, daí, para o mundo “real”), os heróis são obrigados a sincronizar os “chutes” em cada andar para que estes ocorram milissegundos antes dos “chutes” que virão no nível seguinte, levando-os, assim, de volta ao início. Para isso, usam a música cantada por Piaf como aviso sonoro que penetra em todas as camadas, permitindo que coordenem suas ações – e vê-los despertando em seqüência em cada “andar” foi algo que me comoveu de maneira inesperada justamente em função da inteligência e da elegância da estrutura da narrativa.

Uma estrutura que, claro, ainda precisaria de mais algum tempo para se completar de vez, já que, afinal, ainda deveria lidar com Cobb e Saito, que permaneciam presos no limbo.

O Fim da Origem

O que descobrimos, quase no desfecho do longa, é que Cobb já havia plantado uma idéia que resultara em desastre: depois de permanecer o equivalente a décadas no limbo ao lado de Mal (Cotillard), ele se apossara de seu totem para convencê-la de que aquilo era apenas um sonho.

(Um totem é um objeto que o “sonhador” deve escolher no mundo real e que apenas ele deve tocar; assim, ao manipulá-lo – e por ser a única a conhecer suas características -, a pessoa saberá se está sonhando ou não.)

Assim, depois de ser perseguido pela projeção das lembranças da esposa (que se matara no mundo real por julgar ainda estar em um sonho), Cobb finalmente a confronta no limbo e é apunhalado enquanto Ariadne retorna com Fischer para o terceiro nível. Isto, porém, é o ideal, já que, ao voltar a morrer – e ainda sob forte sedação -, o sujeito simplesmente retorna ao limbo, o que lhe permite encontrar Saito, que, tendo chegado ali antes (e em função do tempo dilatado nos níveis mais profundos), agora é um velho que beira a insanidade. O protagonista então busca alertar o outro sobre a realidade daquele lugar, tentando convencê-lo a se matar – já que, com o fim da sedação, a morte agora levaria ambos de volta ao mundo consciente.

Saito parece mover a mão em direção à arma que se encontra à sua frente e… Cobb e Saito despertam no avião. Inocentado graças à interferência do japonês, o herói retorna à sua casa e reencontra os filhos, finalmente sendo capaz de enxergar seus rostos (algo que o afligia durante toda a projeção). Nos segundos finais do filme, porém, ele gira seu totem sobre uma mesa, para certificar-se de que não está sonhando, mas abandona o aposento antes que o objeto pare de rodar – o que comprovaria estar no mundo real. Nolan, sádico, enfoca o totem por mais algum tempo, mas corta para os créditos finais antes que este finalmente interrompa o movimento, deixando o público inseguro acerca do que acabou de ver.

Afinal, Cobb voltou realmente a se encontrar com os filhos ou ainda permanece sonhando?

É uma questão intrigante que permite respostas múltiplas: em primeiro lugar, seria possível até mesmo que Mal estivesse correta em sua percepção e que tudo o que vimos ao longo de A Origem fosse apenas um sonho de Cobb. Neste caso, ao se matar ela teria retornado de fato ao mundo consciente, deixando o marido preso nos sonhos embora este acreditasse justamente no oposto. Há alguns elementos ao longo da narrativa que poderiam indicar esta alternativa, desde a cena no porão de Yusuf, quando um velhinho que ministra sedação afirma que, para seus clientes, “o sonho se tornou realidade”, até o instante em que, sendo perseguido por alguns capangas, Cobb se espreme em um bequinho durante sua fuga – numa imagem típica de sonhos. Além disso, como o sujeito pegou o totem que pertencia à esposa, é possível que as cenas nas quais ele manipula o objeto para se certificar da realidade à sua volta sejam mentirosas justamente graças a algum tipo de falsificação feita pela dona original do brinquedo.

Esta explicação, no entanto, envolveria uma imensa desonestidade por parte de Nolan, que, afinal, gasta um tempo precioso explicando a função do totem – e seria impensável que, depois de tudo isso, o tal objeto simplesmente não desempenhasse função alguma. Assim, devo dizer que rejeito esta alternativa.

O que nos deixa, então, com a opção de que toda a ação do filme tenha de fato ocorrido e que apenas o destino final de Cobb se mantenha dúbio: ele conseguiu, afinal, abandonar o limbo depois de encontrar Saito ou não?

Por um lado, bastaria que Saito baleasse Cobb e se matasse em seguida para que tudo se resolvesse – e mesmo que o japonês se recusasse a fazê-lo, Cobb poderia matá-lo e cometer “suicídio”. No mínimo, ao tentar atacar Saito, Cobb provavelmente seria morto, retornando à realidade (é difícil acreditar que o outro o manteria prisioneiro no limbo e sob constante supervisão para impedir sua “morte”) – e como ambos surgem despertando no avião, é razoável acreditar que tudo tenha funcionado bem.

Por outro lado, isto seria funcionar bem demais. Afinal, com um telefonema Saito parece livrar Cobb da perseguição da justiça norte-americana e, pouco depois, o herói já se encontra reunido à família, o que é excessivamente conveniente. Além disso, é no mínimo estranho que seus filhos usem roupas praticamente idênticas àquelas que vestiam em seus sonhos, que façam movimentos estranhamente similares e – mais do que isso – que não pareçam ter envelhecido um segundo desde a última lembrança do protagonista, já que este parece ter ficado no mínimo um ou dois anos longe delas.

E há, claro, o totem. Ao ser girado nos sonhos, o objeto mantinha um movimento impecável, sem oscilações visíveis, ao passo que, na cena final, ele claramente oscila. Além disso, exatamente no instante em que Nolan corta para os créditos, há um som que poderia indicar o início da queda do objeto.

Que, contudo, poderia perfeitamente ter continuado a girar, indicado se tratar de um sonho.

Em outras palavras: cada espectador poderá chegar a uma conclusão perfeitamente legítima a partir de suas próprias inclinações. Aqueles que apreciam um final feliz podem defender com convicção o reencontro de Cobb com os filhos, ao passo que os céticos não estarão errados em afirmar que o protagonista jamais despertou dos sonhos (ou, no mínimo, que ainda não voltou à realidade).

Minha percepção particular? Jamais poderemos ter certeza – e acredito que Nolan plantou esta dúvida por um motivo importante: o próprio Cobb, depois de ter vivenciado tudo aquilo, tampouco poderá sentir conforto na realidade. Ele sabe que seu totem pertencia a Mal e, assim, poderia ser manipulado em sonhos; ele sabe que a permanência no limbo acaba levando o sonhador a acreditar que aquele é o mundo real; e ele sabe que, da mesma forma que plantou a idéia em Mal de que tudo não passava de um sonho, ele mesmo pode ter sido vítima desta semente – como aponta a última conversa que mantém com a esposa diante de Ariadne, antes de ser esfaqueado.

Assim, a incerteza do espectador diante do final reflete apenas a dúvida do próprio protagonista acerca de sua própria realidade. Uma solução que, confesso, me encanta pela elegância e simetria e que, portanto, passo a defender como a definitiva.

http://www.cinemaemcena.com.br/

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Com todas as virtudes (e são muitas) que os bons filmes têm, poucas são as obras audiovisuais de mercado que atacam de frente a questão mais fascinante de todas as que o cinema pode propor: como nós, na platéia, vemos, compreendemos e adicionamos significado àquela sucessão de imagens em movimento? Que maravilhosa engenharia (ou arquitetura, para repetir um conceito nolanesco) nos possibilita criar histórias a partir daquilo que vemos, e dar a essas histórias elementos de emoção, memória e até paixão que trazemos do fundo de nossa alma e colocamos, como uma oferenda a um deus antigo, no altar da tela?

Inception/A Origem, de Christopher Nolan, faz exatamente isso. Nem mais, nem menos.

Não é pouca coisa. É o que os surrealistas sonharam, o que Buñuel propôs ao cortar o olho e Cocteau imaginou ao colocar a Bela no palácio da Fera. É a possibilidade da narrativa ser a história, do continente ser o conteúdo. A encruzilhada onde filme e sonho se encontram mais perfeitamente.

Desde o início de sua carreira (e dou uma dica aqui: Following, seu filme de estreia, de 1998, contém a semente de Inception) Nolan tem explorado essa encruzilhada, propondo novos modos de construir uma narrativa (Amnesia), estudando os conceitos de real/irreal (O Grande Truque). Consta que o roteiro de Inception estava escrito há nove aos. Acredito – é obra ao mesmo tempo íntegra, coerente com as ideias originais do realizador, e madura, apurada em outros projetos através de tentativa e erro .

Infelizmente, é um desses  filmes sobre os quais quanto menos eu falar, melhor. É praticamente impossivel descrever sua história sem inundar a tela de spoilers. Por isso direi apenas o seguinte: Cobb (Leonardo di Caprio) é um “extrator”, um profissional capaz de invadir sonhos alheios para dali roubar segredos industriais, de estado ou o que for. Esta arte ele aprendeu com o sogro (Michael Caine) e ela lhe trouxe vasta fortuna mas também sérios esqueletos em seu armário, quase todos ligados à sua mulher, Mal (Marion Cotillard). Contratado por um executivo poderosíssimo (Ken Watanabe) para uma missão quase impossível, Cobb tem que arriscar tudo no frágil mundo que é sua vida pessoal.

Fiquemos por aqui. Posso acrescentar apenas que este é filme para se ver de olhos bem abertos, prestando atenção a tudo – porque o modo como a história está sendo contada é, essencialmente, a própria história. Como bem disse Peter Travers em sua resenha na RollingStone.com, Inception vai contra a corrente que presume que todo espectador é um idiota e portanto todo filme tem que ser ex-pli-ca-di-nho, bem mastigado e bem condescendente. Inception exige o investimento da  inteligencia, da lucidez  e do raciocínio ligados à toda. E mesmo assim você se perde no caminho, porque os labirintos de Nolan são melhores que os da personagem Ariadne (Ellen Page), ela do nome mitológico como o da princesa que salvou Teseu do Minotauro.

Preste atenção `as paisagens. Preste atenção à agua, aos espelhos, ao trem que tão frequentemente parte a tela em dois. Preste atenção ao que as pessoas dizem, e quando elas dizem. São chaves para o labirinto.

Note algo importante: como Nolan compreende de verdade que sonhos são experiências orgânicas, alimentadas pelo que sentimos, tocamos, provamos e ouvimos enquanto acordados, informados pelos sentidos, formatados por nossas emoções. Por isso escolheu , em vez de cenários virtuais, locações de verdade, no Canadá, Los Angeles, Paris, Tóquio, Marrocos; e efeitos mecânicos, diante da câmera, no lugar dos digitais, sempre que possível. É uma das mais importantes virtudes do filme, e o modo mais poderoso como Nolan imediatamente nos conecta com seu mundo – porque, de fato, estamos compartilhando uma experiência que, mesmo que nem sempre conseguindo descrever, sentimos e vivemos profundamente. Sonhos não são delírios virtuais – erro de muita gente que se arrisca por esta seara- mas experiências reais, multidimensionais e sensuais, enquanto estamos neles. Inception compreende isso gloriosamente.

A maravilhosa trilha de Hans Zimmer, uma mistura equilibradissima dos sons naturais de uma grande orquestra (mais a guitarra lírica de Johnny Marr) e de uma bateria de manipulações digitais, forma a atmosfera perfeita para esta experiência.

Se eu fosse fazer uma ressalva à tremenda viagem que é Inception eu diria isso – que é fácil se perder nele. Mas considerando o nível de idiotice da maioria dos filmes este ano, estou achando ótimo.

Acrescento que, fiel à sua trajetória, Nolan –roteirista e produtor de Inception, além de diretor – quebra meia dúzia de regras do status quo de bem fazer cinema. Quebra bonito, com convição, elegância e a certeza de que só quem sabe muito de cinema pode se dar a esse luxo. Por exemplo: o filme é praticamente todo exposição. E que perfeição de exposição.

Eis aqui por que tenho este nível de admiração por um filme deste tamanho, feito com estes valores de produção e este elenco (todos ótimos, aliás): porque um filme desta envergadura, realizado com esta ambição e esta inteligência, pode tocar fundo a alma de milhões de pessoas pelo mundo afora. Pode fazê-las pensar, pode provocá-las, confundi-las, sacudi-las. Pode desafia-las a ver o mundo com olhos novos e observar de outros ângulos o papel do cinema no mundo.

Se esta não é a vocação mais profunda da imagem em movimento, então não sei qual é.

http://anamariabahiana.blog.uol.com.br

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A Origem (Inception, 2010) não é nenhuma esfinge. Na verdade, a sua estrutura, emprestada dos filmes-de-assalto, é bem trivial. Acompanhamos o planejamento de um golpe enquanto se aprende o essencial de cada personagem. Na hora de pôr o golpe em prática, termina o ensaio, começam os imprevistos.

Grupos de golpistas costumam ter um novato porque é preciso expor ao espectador as regras do jogo (que os personagens veteranos, obviamente, já conhecem). Em A Origem, a estudante Ariadne (Ellen Page) faz essa função. Ela é a nossa representante na trama, intrigada com a tal máquina de invadir sonhos inventada pelo roteirista e diretor Christopher Nolan. Ironicamente, o totem de Ariadne é um peão de xadrez – ela só serve para ser a intermediária, a intérprete.

A regra é clara

Como no cinema de Nolan o que importa é o engenho, a maquinação, ele evidentemente se preocupa em deixar as regras claras – antes de Ariadne aparecer em cena, o jogo é explicado a outro novato no meio, o personagem de Ken Watanabe. Pontos de referência no elenco, Joseph Gordon-Levitt e Leonardo DiCaprio se revezam nas explanações. Mais adiante, entra o químico com seu supersedativo, o falsificador com seus disfarces, e todos param para ouvir mais explicações.

É como ver um filme baseado em Philip K. Dick com narração da voz do GPS. Essa obsessão de Nolan pela ordem, por tentar organizar um universo de ficção científica cheio de enunciados (bons tempos os de Asimov, em que as leis da robótica eram apenas três), acaba sabotando A Origem de dentro pra fora. Porque quando começa o golpe, e à medida que os golpistas vão mais fundo, as incongruências saltam aos olhos.

E não há nada pior para um ilusionista do que ser desmascarado.

Não convém aqui listar todos os desvios de lógica que acometem A Origem. Basta a pergunta de Ariadne numa das muitas bifurcações da trama: “Peraí, no subconsciente de quem estamos entrando mesmo?”. Não se envergonhe se você se perder pelo caminho – o que parece complexo pode ser só complicado – já que, afinal, a nossa representante dentro do filme também levou um nó de Nolan.

Assim como em Batman – O Cavaleiro das Trevas, em que muitos lances prescindem de verossimilhança e existem por pura catarse (por exemplo, o Coringa antecipar eventos que seriam impossíveis de calcular, como a bomba plantada na barriga do gordo pra pegar o chinês), A Origem abraça o impacto pelo impacto. Como na cena da escada de Penrose, em que o personagem de Gordon-Levitt solta uma frase de efeito nerd para comemorar a própria esperteza.

3x5s=47m

Christopher Nolan é esperto, disso não há dúvida. No fim das contas, ele acaba embrulhando seu filme-de-assalto no conceito de subsolos de sonhos só para viabilizar um triunfo narrativo: a dilatação do clímax. Se considerarmos que começa e termina com o chute do primeiro sonho, então o clímax de A Origem tem 47 minutos. É o milagre da multiplicação do suspense.

Não se deve subestimar a importância da trilha sonora de Hans Zimmer nesse processo. O clímax nos segura por tanto tempo, em boa medida, porque Zimmer mantém o seu tema da vuvuzela numa escalada de notas alongadas. Já era um truque que o compositor e o diretor empregaram com O Cavaleiro das Trevas (especialmente na cena da balsa dos condenados) e em A Origem funciona ainda melhor.

Mas, como toda trucagem, esta só está à espera de ser desmontada (e parodiada, como já acontece com o filme web afora). Passada a primeira impressão, A Origem tende a depreciar a curto prazo. Enquanto isso, Christopher Nolan se diverte com seu pião – vai todo mundo rever o filme e prestar atenção na aliança ou nas roupas das crianças, só para tentar entender um enigma que muito provavelmente não faz sentido sob qualquer ponto de vista.

http://www.omelete.com.br/cinema/critica-origem/

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